Brasil, no modo quanto mais pior, melhor

A imagem é gasta, mas ainda bem adequada. Não há como não pensar na orquestra do Titanic, que tocava enquanto o transatlântico afundava. Quem olhar em volta, não terá dúvidas de que o navio está prestes a ir a pique. A Covid recrudesce e as UTIs ficam lotadas, mas os governos reagem com medidas tímidas, ainda por cima atrasadas por causa da eleição. O total de desempregados no país aumentou 36% em seis meses, e 2,8 milhões de brasileiros voltaram a procurar emprego desde agosto.
O auxílio emergencial, reduzido à metade, acaba em 31 dezembro, mas governo e Congresso descartam criar o programa Renda Cidadã este ano, ou sequer turbinar o Bolsa Família.
Só vão voltar a discutir essa pauta em fevereiro, assim como medidas fiscais que eram consideradas urgentes por eles mesmos há um ano. Vai ser ridículo, por exemplo, continuar chamando de “Emergencial” a PEC que regula o disparo de gatilhos para conter as despesas públicas. Continua na gaveta, assim como as reformas tributária e administrativa.
Legislativo e Executivo estão atarefados com a disputa de poder em torno do comando da Câmara e do Senado, e isso passou a ser explicação para tudo. O tecido político esgarçou-se de tal forma ao longo do governo Bolsonaro que todo o ambiente político parece ter se apequenado. As prioridades do país e de sua população, que vivem uma baita crise tanto do ponto de vista sanitário como econômico, ficam para depois porque os interesses imediatos dos protagonistas da política assim o determinam.
Bolsonaro, por exemplo, está muito preocupado em encontrar um partido para chamar de seu e disputar a reeleição. Vem consumindo boa parte dos seus dias nisso. Nas horas que sobram, trabalha para turbinar a candidatura Arthur Lira à presidência da Câmara para derrotar o adversário Rodrigo Maia. Um gesto do qual poderá se arrepender amargamente depois. Basta se aconselhar com Dilma Rousseff, que comeu o pão que o diabo amassou por tentar derrotar Eduardo Cunha lá atrás.
O presidente da República anda sem tempo para cuidar das decisões sobre a pandemia, como o plano de vacinação. Já não cuidava, e agora menos ainda, daquela que seria, nas expectativas do público liberal, sua principal missão: a agenda de reformas. Por certo tempo, ela foi cuidada por Paulo Guedes, quando este se dava bem com Maia. Depois, virou um barata-voa. E Maia e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, também andam ocupadíssimos cuidando da própria sucessão e não vão resolver isso agora. Envolveram até o STF no assunto – como se a Corte não tivesse mais do que se ocupar.
Obstrução na Câmara, lentidão no Senado, se algum habitante de Marte chegasse hoje ao Congresso concluiria, rapidamente, que esse pessoal anda fazendo o jogo do quanto pior, melhor. Claro, a eleição que fortaleceu a direita não bolsonarista mostrou que uma boa parte do Legislativo – a maioria, quem sabe – não está disposta a botar azeitona na empada da reeleição do presidente. Prepara-se para votar, daqui até lá, o mínimo para a economia não ir para o buraco. E só.
O risco é esse pessoal errar a mão. Entre entrevistas e devaneios sobre 2022 – o que mais temos visto nos últimos dias – o establishment político negligente tem que se lembrar que, quando e se chegar a hora, vai ser preciso ter um país para governar.
Do blog de Noblat por Helena Chagas
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